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Beauvoir-Sartre: a superação do amor romântico?

“Julguei que seria resolvido com muita facilidade: é possível conciliar fidelidade e liberdade? E se for, a que preço? (…) Se os dois aliados permitem-se apenas ligações sexuais passageiras, não há dificuldade, mas isso também significa que a liberdade que se permitem não merece o nome que tem. Sartre e eu fomos ambiciosos; foi nosso desejo experimentar amores contingentes. Mas, há uma pergunta que evitamos deliberadamente: como a terceira pessoa se sentiria em relação ao acerto?”
(Simone de Beauvoir)
[Este texto é dedicado ao Luiz. Por ter me ensinado que o melhor amor é aquele que não prende, que respeita, em que os dois são iguais e que constrói não por obrigação a nenhuma norma, mas pela livre vontade de estar junto.]
A ideia de amor romântico me parece que vem perdendo espaço cada dia mais. Até a Disney, que em todos os seus clássicos reforçou a ideia machista de que a princesa, pobre e indefesa, precisa de um príncipe forte e bonitão que a salve dos perigos da vida, tem produzido animações que buscam sair dessa obsessão que especialmente as mulheres têm (não porque querem, mas porque o sexismo que rege a sociedade impõe que, enquanto o homem é, a mulher é-para-o-homem) de que a vida e a felicidade dependem da sorte de encontrar um grande amor.
O amor livre vem, ao mesmo tempo, se estabelecendo enquanto possibilidade de relacionamento, mas as pessoas não compreendem, realmente, do que se trata esse tal de amor livre. Todo mundo ama todo mundo? Ninguém ama ninguém? Como é um modo de se relacionar que ultrapassa a ideia pré-estabelecida de que relacionamentos são monogâmicos e heterossexuais, é normal que existam pessoas que apresentem dificuldades em aceitar um modo de ser que põe em cheque os valores vigentes e a moral cristã profundamente enraizada na sociedade ocidental pós-moderna.
O fato é que, em se tratando de relacionamentos, há tanta diversidade e complexidade que, muitas vezes, rotular uma relação como “amor isso” ou “amor aquilo” faz perder de vista a beleza que envolve uma relação humana. É com isso em mente que tento pensar a relação entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, famosos filósofos existencialistas franceses. Os dois se conheceram na Sorbonne, sendo ambos professores de filosofia. Logo criaram uma parceria e, assim, passaram a se relacionar afetiva e sexualmente. Os dois, porém, estabeleceram um pacto em que não manteriam uma relação monogâmica, pois, enquanto escritores, buscavam sempre novas aventuras na vida. Juraram jamais mentir um para o outro e, também, que compartilhariam todas as suas experiências amorosas para que a experiência de um fosse a experiência do outro.
O filme “Os amantes do Café Flore”, de 2006, conta a história de Simone e Jean-Paul e mostra as alegrias e as dificuldades de seu relacionamento. Além, claro, de terem decidido por esse tipo de relacionamento por causa do próprio existencialismo e das ideias que tinham sobre o que é ser livre, pensavam que relacionar-se dessa forma era, também, um gesto político que mostrava o descontentamento de ambos com a moral da burguesia da época. O que acontece, porém, quando se pensa no casal Beauvoir-Sartre, é uma idealização de tal relação, como se os dois, por se relacionarem livremente, tivessem sido capazes de ultrapassar todos os tipos de dificuldades e angústias do relacionar-se humano. O filme desconstrói essa ideia e mostra-os como eram: entre eles havia brigas, ciúmes, intrigas e carências, pois os dois eram, acima de tudo, humanos.
Cena do filme “Os amantes do Café Flore”
Chama a atenção, também, o fato de que Simone de Beauvoir, que mudou radicalmente a visão da mulher de si e do mundo depois de publicar “O Segundo Sexo” em 1949, é retratada como mulher que era – não como um ser que conseguiu se desvincular por completo das ideias machistas e dos sentimentos de posse do outro, mas como alguém que buscou, durante toda a sua vida, descontruir essas ideias e perseguir aquilo que achava correto, sempre questionando o controle dos corpos sobre o qual Foucault, mais tarde, falaria. Essa busca, todavia, não foi uma busca fácil, como às vezes pensamos erroneamente. Simone abdicou de desejos e vontades suas, enquanto ser humano e mulher, para continuar fazendo da sua vida a prática que ela pregava em seu discurso. Por esse motivo ela foi autêntica: abriu mão do casamento e da maternidade, mesmo que em certo momento tenha pensado que poderia gostar de seu esposa e mãe, pois acreditava profundamente naquilo que pregava enquanto filósofa e teórica. Esse seu gesto de abnegação de desejos que ela sabia ser influenciados pela lógica machista vigente é de bravura estonteante e é, provavelmente, o que faz com que Beauvoir seja, até hoje, uma das mulheres mais respeitadas que já existiram. Mas há também espaço para contradição no relacionamento pouco convencional de Sartre e Beauvoir: pode ser que o pacto que firmaram tenha feito com que ambos vivessem uma vida dividida, pois acabaram por ficar obcecados pela ideia de liberdade que tanto buscavam viver.
Conhecer a história de Sartre e Simone de Beauvoir faz, inclusive, com que compreendamos de forma bem mais clara o que foi que levou Simone a escrever sua obra prima. E ela, em sua genialidade, foi capaz de perceber que mesmo sendo parte da relação livre que mantinha com Sartre, era menos livre que ele, por ser mulher. Admitir isso foi o impulso inicial para que pudesse concluir “O Segundo Sexo”.
Ficamos esperando que relacionamentos livres sejam a resposta para todas as questões que permeiam as relações humanas, mas esquecemos, muitas vezes, que relacionar-se é demasiadamente complexo e não há fórmulas para a vida nem para o amor. Simone e Sartre encontraram um modo de viver que fez sentido para eles. Ficaram anos sem se relacionar sexualmente. Sartre teve romances sérios com outras mulheres, Beauvoir teve também outros amores, como com o americano Nelson Algren. Nunca se separaram, porém, e terminaram enterrados lado a lado. Talvez porque, mais importante do que gritar para os quatro cantos do mundo que se é dono de alguém, é criar uma relação de cumplicidade e bem querer mútuo que possibilite que cada um seja livre e autêntico para que o amor, que tanto buscamos, apareça e permaneça. O que Sartre e Beauvoir ensinaram foi que é possível, sim, fazer coexistir amor e liberdade, mas que há limitações e dificuldades nessa forma de relacionamento assim como em qualquer outro, pois o ser-no-mundo-com-os-outros é, sempre, cheio de dificuldades. Não representam o fim do amor romântico, pois este só terá seu fim se forem reformulados todos os valores que regem a sociedade ocidental pós-moderna, mas deixaram como legado a ideia de que é necessário atentarmos para o controle que exercemos sobre os corpos uns dos outros e que devemos, sempre, buscar a autenticidade em todas as nossas relações. Representam, por fim, aquela pontinha de esperança por um relacionar-se baseado não no cumprimento de regras sociais, mas na real vontade de estar junto.
Revisado por Eliete Freitas.